quinta-feira, 6 de abril de 2017

Cinema em pauta: As pontes de Madison

Super-sentimental, drama romântico dirigido e interpretado por
Eastwood ganha força pela ótima interpretação de Meryl Streep. 
O passado sempre tem algo a dizer nos filmes de Clint Eastwood. Mas, no fim, a última palavra é mesmo da morte. Não é por acaso que em "As Pontes de Madison" (TCM, 22h; 12 anos), um dos mais delicados filmes desse autor, a ação deriva de uma carta deixada pela mãe para os filhos, onde relata a história de amor extraconjugal com um fotógrafo que passou por ali.

Existem, assim, dois filmes no filme: a história da mãe e a dos filhos, que se confrontam, atônitos, com uma história que não apenas transforma toda sua história pessoal, seu próprio passado, como mexe com toda sua concepção de moral.

Não é estranho, mas é para notar que a filha reconheça bem mais facilmente o direito da mãe ao desejo do que o filho. Homens: à retaguarda!

Muitos anos após viver Dirty Harry e protagonizar os faroestes antológicos de Sergio Leone, Clint Eastwood viria a dirigir um filme para comover 10 entre 10 corações apaixonados. As Pontes de Madison é uma obra que mescla um belo romance e um drama bem estruturado, mesmo inserindo em sua narrativa alguns recursos um tanto óbvios para o gênero. Richard LaGravenese adapta o romance de Robert James Waller, onde durante menos de uma semana se acompanha a história de Francesca, imigrante italiana casada, com dois filhos, que possui uma fazenda no interior do estado americano de Iowa, vivendo em concessão com sua pacata existência. Quando seu marido e filhos viajam, deixando Francesca sozinha, um fotógrafo de Washington aparece e pede ajuda a ela, desejando encontrar e então fotografar as pontes cobertas do local, citadas no título do filme.

LaGravanese, que recentemente dirigiu e roteirizou P.S. Eu Te Amo, é o responsável por parte da depreciação justificável que se pode ter em relação a As Pontes de Madison. Seu roteiro dá grande ênfase em um segundo núcleo que é centrado nos filhos de Francesca, já adultos, que retornam à casa da mãe para resolverem assuntos relativos ao falecimento da mesma. O filme se inicia, termina e é pontuado por constantes intervenções deste núcleo, composto por personagens fracos que nada acrescentam à trama, interpretados por atores pouco competentes. A justificativa de que a história de amor de Francesca e Robert está sendo descoberta e contada pelos filhos da primeira pode funcionar na literatura, porém no contexto do filme transparece como apelo dramático fácil, pois se o espectador enxerga a imoralidade na relação extraconjugal da protagonista, aceita com maior facilidade após o consentimento de seus próprios filhos.

O filme ainda possui algumas cenas belíssimas interrompidas pela narração desnecessária de Francesca, que mesmo acontecendo poucas vezes, apenas reitera através de palavras o que Eastwood evidencia com sua detalhista direção. A narração dificilmente acrescenta algo que é imperceptível aos olhos, fazendo assim com que a profundidade atingida por algumas sequências se perca em superficialidades proporcionadas pela "explicação" desses momentos.

A direção de Eastwood é elaborada, como sugeri antes, detalhadamente, e o trabalho do mesmo é muito bem desenvolvido, somado à bela fotografia de Jack N. Green, que também trabalhou com o diretor em Cowboys do Espaço e no subestimado Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal. Alguns planos escolhidos pelo diretor deixam claras as referências que o roteiro elabora em relação ao envolvimento dos personagens. Quando os amantes versam rapidamente sobre o voyeurismo, por exemplo, em outro momento a câmera tende a se afastar, em um plano que cobre a refeição de ambos através de um ângulo que se divide entre a mesa de jantar e uma parede. Mesmo que Francesca se culpe por observar Robert em alguns momentos, mantendo-se escondida, no início do envolvimento de ambos, Eastwood explicita na passagem supracitada e em outras que o verdadeiro voyeur desse romance é o espectador.

Não levando em consideração alguns útimos trabalhos frente às câmeras, o que fica evidente em As Pontes de Madison é que, como ator, Clint Eastwood é um ótimo diretor. A composição que o mesmo cria para Robert é limitada, apoiada quase que inteiramente nos bons diálogos do personagem. Robert não tem um caráter definido e parece existir apenas para ser a peça fundamental do romance e dos subsequentes questionamentos de Francesca. Eastwood vive Robert com certa intensidade contida, encontrando apoio apenas em Meryl Streep, que carrega praticamente toda a carga emocional do filme em sua cativante personagem. Streep, indicada ao Oscar por este papel, constrói uma personagem única, que fala por vezes mais com um simples movimento do que através de várias frases. A conformada dona de casa é definitivamente um de seus maiores papéis, dada a imersão da atriz neste filme. O Oscar em 1995 infelizmente não foi para a atriz, porém a mesma fora recompensada em outras duas ocasiões. O prêmio, porém, não fora desperdiçado: Susan Sarandon o levou, por sua interpretação em Os Últimos Passos de um Homem.

Mesmo sendo consideravelmente prejudicado pelos problemas aqui já apontados, deve-se reconhecer o grande mérito de As Pontes de Madison, dada a força originária da história de Francesca e Robert. O casal gera imensa empatia logo em sua primeira cena juntos, e fazem com que seja impossível a depreciação das atitudes dos mesmos, graças em grande parte, volto a repetir, ao trabalho extraordinário de Meryl Streep. Se o roteiro faz escolhas erradas, se a atuação de Eastwood não contribui, ou se mesmo a trilha sonora, melodramática demais, seja utilizada em demasia, nada diminui o impacto que causa o relacionamento dos protagonistas, que é intenso, puro e genuíno. Peça fundamental para aqueles que apreciam os filmes do gênero, As Pontes de Madison deve ser ainda melhor programa quando assistido a dois. E é bom lembrar de ter por perto um lencinho. Ou, de preferência, uma caixa deles.


Por várias razões, o filme 'As pontes de Madison' é uma bela produção. Primeiro por trazer para as telas uma sutil crítica ao moralismo burguês, tanto estadunidense, quanto de outras partes do mundo. Em segundo lugar, por tomar uma situação bastante comum como eixo temático e, principalmente, por colocar o dilema ético do amor, dividido entre o senso de dever, o autossacríficio, e a plenitude da alma realizando-se num profundo e maduro amor que (re)surge na maturidade.

Um fotógrafo de passagem por uma fazenda, descobre nas conversas com uma dona de casa a possibilidade de realização do amor sem paixão passageira, mas do amor amadurecido pelo tempo e pela experiência. Ao final do filme, aparece o momento da decisão entre o senso de dever e o amor possível. Não vamos tirar do eventual leitor desse blog a oportunidade de descobrir por si mesmo, todos os meandros desse belo filme que não envolve corpos musculosos e figurino caro, mas apenas duas pessoas maduras e amadurecidas vivendo um dilema comum e, talvez, o mais atormentador de todos.

Se 'o coração tem razões que a própria razão desconhece', como escreveu Blaise Pascal, eis uma boa oportunidade de pensar - muito - sobre o assunto !

- por Paulo Santos

Ficha técnica: The Bridges Of Madison County. 1995.
Ano de Lançamento: 1995
Gênero: Drama, Romance
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Clint Eastwood, Meryl Streep e Annie Corley
Produção: Warner Bros. Pictures, Amblin Entertainment
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